sáb., 05 de out. | Parque Cachoeira

Tricontando

O projeto é uma parceria entre a Casa Eliseu Voronkoff, a página de incentivo à leitura, Capitu Lê, e a Gato de Gola, artigos em tricô
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Tricontando

Horário e local

05 de out. de 2019 14:00
Parque Cachoeira, R. Guanabara, 2-74 - Iguaçu, Araucária - PR, 83701-160, Brasil

Sobre o evento

O conto que vai ser o ponto de partidade para nosso bate-papo nesse encontro é  Pausa, de Moacyr Scliar:

  Às sete horas o despertador tocou. Samuel saltou da cama, correu para o banheiro, fez a barba e lavou-se. Vestiu-se rapidamente e sem ruído. E sem ruído estava na cozinha, preparando sanduíches, quando a mulher apareceu, bocejando:   --- Vais sair de novo, Samuel?   Fez que sim com a cabeça. Embora jovem, tinha a fronte calva; mas as sobrancelhas eram espessas, a barba, embora recém-feita, deixava ainda no rosto uma sombra azulada. O conjunto era uma máscara escura.        --- Todos os domingos tu sais cedo --- observou a mulher com azedume na voz.        --- Temos muito trabalho no escritório --- disse o marido, secamente. Ela olhou os sanduiches:        --- Por que não vens almoçar?       --- Já te disse: muito trabalho. Não há tempo. Levo um lanche. A mulher coçava a axila esquerda. Antes que voltasse à carga, Samuel pegou o chapéu:       --- Volto a noite.       As ruas ainda estavam úmidas de cerração. Samuel tirou o carro da garagem. Guiava vagarosamente, ao longo do cais, olhando os guindastes, as barcaças atracadas.       Estacionou o carro numa travessa quieta. Com o pacote de sanduiches debaixo do braço, caminhou apressadamente duas quadras. Deteve-se ao chegar a um hotel pequeno e sujo. Olhou para os lados e entrou furtivamente. Bateu com a chave do carro no balcão, acordando um homenzinho que dormia sentado numa poltrona rasgada. Era o gerente. Esfregando os olhos, pôs-se de pé:       --- Ah! Seu Isidoro! Chegou mais cedo hoje. Friozinho bom este, não é? A gente...       --- Estou com pressa, seu Raul --- atalhou Samuel.       --- Está bem, não vou atrapalhar. O de sempre. --- Estendeu a chave.       Samuel subiu quatro lanços de uma escada vacilante. Ao chegar ao último andar, duas mulheres gordas, de chambre floreado, olharam-no com curiosidade:       --- Aqui, meu bem! --- uma gritou, e riu: um cacarejo curto.       Ofegante, Samuel entrou no quarto e fechou a porta a chave. Era um aposento pequeno: uma cama de casal, um guarda-roupa de pinho; a um canto, uma bacia cheia d`água, sobre um tripé. Samuel correu as cortinas esfarrapadas, tirou do bolso um despertador de viagem, deu corda e colocou-o na mesinha de cabeceira.       Puxou a colcha e examinou os lençóis com o cenho franzido; com um suspiro, tirou o casaco e os sapatos, afrouxou a gravata. Sentado na cama, comeu vorazmente quatro sanduiches. Limpou os dedos no papel de embrulho, deitou-se e fechou os olhos.       Dormir.       Em pouco, dormia. Lá embaixo, a cidade começava a mover-se: os automóveis buzinando, os jornaleiros gritando, os sons longínquos.       Um raio de sol filtrou-se pela cortina, estampou um círculo luminoso no chão carcomido.       Samuel dormia; sonhava. Nu, corria por uma planície imensa, perseguido por um índio montado a cavalo. No quarto abafado ressoava o galope. No planalto da testa, nas colinas do ventre, no vale entre as pernas, corriam. Samuel mexia-se e resmungava. Às duas e meia da tarde sentiu uma dor lancinante nas costas. Sentou-se na cama, os olhos esbugalhados: o índio acabava de trespassá-lo com a lança. Esvaindo-se em sangue, molhado de suor, Samuel tombou lentamente; ouviu o apito noturno de um vapor. Depois, silêncio.       Às sete horas o despertador tocou. Samuel saltou da cama, correu para a bacia, lavou-se. Vestiu-se rapidamente e saiu.       Sentado numa poltrona, o gerente lia uma revista.       --- Já vai, seu Isidoro?       --- Já --- disse Samuel, entregando a chave. Pagou, conferiu o troco em silêncio.       --- Até domingo que vem, seu Isidoro --- disse o gerente.       --- Não sei se virei --- respondeu Samuel, olhando pela porta; a noite caía.       --- O senhor diz isso, mas volta sempre --- observou o homem, rindo.       Samuel saiu.       Ao longo do cais, guiava lentamente. Parou um instante, ficou olhando os guindastes recortados contra o céu avermelhado.      Depois, seguiu. Para casa.   MOACYR SCLIAR -In; Alfredo Bosi, org. O conto brasileiro contemporâneo. São Paulo: Cultrix, 1977.p.275.  

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