sáb., 06 de mar. | Google Meet

Tricontando (on line)

O projeto é uma parceria entre a Casa Eliseu Voronkoff, a página de incentivo à leitura, Capitu Lê, e a Gato de Gola, artigos em tricô
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Tricontando  (on line)

Horário e local

06 de mar. 15:00
Google Meet

Sobre o evento

Entre em contato pelo Whatsapp 41 99850 6246 para receber o link de acesso. 

Segue o texto que será ponto de partidade para nosso bate-papo neste encontro: 

 

Viração de tempo 

Jarid Arraes  

Não tinha hora certa para aparecer. Vinha quando o tempo virava, e perceber a viração do tempo é habilidade nossa.

 Quando entendíamos a mensagem, algumas pessoas já saíam para a rua, impelidas pela curiosidade escrachada. Eu saía pela curiosidade sofrida.

Sentava no batente da porta e tentava adivinhar de qual lado ela viria. 

Quando vinha do lado esquerdo, que era o lado do centro da cidade, sempre estava mais transtornada. Agitada, gritando com seus fantasmas, muitas vezes seminua. No centro, as pessoas não têm paciência. Quer dizer, ninguém tem paciência em parte alguma, mas no centro estão todos tentando brincar de cidade grande. 

Ela interrompia a necessidade de se parecer cidade. Ela caminhava com seus trapos, com sacolas vestidas como blusas, falando coisas incompreensíveis, e ninguém nomeava banho, comida, roupa, dinheiro, abrigo. Ela vinha do centro da cidade, e quem estivesse pelas calçadas sabia que seu nome era Loucura, Loucura, Loucura. Loucura tinha os cabelos curtos, quase raspados. Os cabelos ficavam um tempo crescendo, fazendo nó, até que alguém — não sei quem — raspava de novo. Seus cabelos mais crescidos pareciam muito macios, ainda que estivessem muito sujos. Quase idênticos aos meus, na verdade. E esse foi um dos primeiros assuntos entre Loucura e eu.

 — Seu cabelo é lindo — eu disse, tentando não soar infantil. 

Ela respondeu:

 — Eu sei, eu sei — e continuou caminhando. 

Pareceu não lembrar de mim nas outras vezes em que nos vimos, até um dia em que o tempo mudou e a chuva forte levou sua sacola de coisas. 

Eu me aproximei e perguntei o que tinha na sacola. Talvez eu pudesse substituir os objetos. 

— Um sabonete, um pacote de bolacha maizena, um ursinho de pelúcia.

 — Vou ficar te devendo o ursinho, tudo bem? — ela concordou e tentei compensar com mais comida. 

Depois desse dia, Loucura conversava com seus fantasmas e comigo. Se vinha do lado direito, vinha menos suja e mais calma. Eu lhe oferecia algo para comer. Café com pão, quase sempre. E às vezes ela rejeitava.

 — Já comi. 

Eu apenas reparava em seu corpo magro, forte, não depilado, cheio de cicatrizes. As pessoas da rua me olhavam assim tão próxima de Loucura. Curiosas patológicas. Eu apenas triste. Era Natal quando eu voltava da casa da minha mãe, e o tempo mudou. Loucura apareceu na esquina do lado esquerdo, sem roupa alguma, somente arrastando um saco preto quase vazio. Quem estava na rua começou a rir, fazer piada e vaiar.

 Loucura com os olhos cheios de lágrimas e as pessoas rindo. Algumas mães empurraram as crianças para dentro de casa e eu comecei a gritar: 

— Vem cá, vem cá — na esperança de que ela estivesse lúcida o suficiente para me reconhecer e aceitar minha ajuda. 

Mas ela passou direto, não olhou para qualquer uma daquelas pessoas, não olhou para mim. Foi na direção do lado direito da cidade e, naquele dia, de qualquer forma, eu não teria o ursinho de pelúcia que lhe devia.

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