• Rico

Cuéra

Atualizado: 28 de fev.



Quem mandou casar com mulher bonita?

Amargou a frase de sua mãe. Esgotou as tentativas de reconstrução dos fatos. O que poderia ter feito para evitar o fim? Por que ela não resistiu aos assédios? Por que sua vida ruiu num relance?

A clausura na casa dos pais. Geada dentro e fora. As férias passam pela fresta na parede.

Toda fossa compreendida e não poupada.

Abstraiu de vez, quando o pai sugeriu casar de novo. Reboliço nunca mais.

Levantou da cama e tratou de comprar uma bicicleta. Saiu empinando.

Livrou-se do carro empoeirado, na casa vazia que ela deixou.

A raia pelos céus da Costeira. Devastou algumas paineiras.

Arapuca para passarinho. Setra de sorinho. Matou três na pedrada.

No bar, gasosa e um doce de amendoim. Nem pede cangibrina.

As falhas pelo carreiro. Fogueira para assar um tanto de pinhão.

A cava não dá pé. Atravessa á nado. Muitos lambaris. Sorte de principiante.

Foi visto na esquina com a molecada. Baixinho, fracote, sem porte, sardas no rosto. Misturou-se facilmente entre os pequenos.

Os pés pretos de sujeira e o terreiro cheio de buracos de bulico. Na caspelinha rapelou as bolinhas de gude de todos.

No campinho de futebol arranjou confusão. Queria entrar no torneio dente-de-leite.

Não tem o que falar sobre a formosura das meninas da vila descendo a ladeira. Cansou do amor, prefere trepar em árvores, catar jabuticabas, amorinhas, o que for.

Seu amigo imaginário, o aconselhou: Não se apegue a ninguém.

Segue da magrela, prá baixo e prá cima. Passou açúcar nos aros, para aumentar o barulho da freada.

O que é de gosto, é de regalo da vida - diz ele.

O olhar da vizinhança não erra. Cuéra neste ofício. João voltou a ser piá.



Este texto é de responsabilidade do autor/da autora.



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