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Diário De De.Composição #2



Querido diário hoje o dia foi maravilhoso, tudo tem dado certo, as pessoas não morrem mais de fome, o comunismo venceu e os unicórnios voltaram a existir, eita, esse é um projeto que visa ter uma ordem cronológica, então, se você perdeu as partes anteriores pare, volte e leia na sequência, te enganei né telespectador? Ah senhor juiz, só lembrando que essa é uma obra de ficção real.


Como em quase tudo nessa vida o lanche me decepcionou, veio um molho branco com algo que parecia com os restos de um gramado cortado e com inclusive algumas pedras, tirando isso ate que estava bom. Pra não ferir minha ética de gordo eu mato o lanche todo e num único gole eu acabo com o suco de maracujá para ajudar a tirar aquele gosto de lote capinado que impregnava minha boca. Desanimado pela falta de satisfação que o jantar me trouxe resolvi terminar o filme que foi abandonado na noite anterior, e dessa vez com sucesso. Como suspeitamos foi uma sessão de cinema solo bem meia boca, desliguei tudo, dei play na música e fui dormir, na madrugada a música por algum motivo desconhecido travou fazendo um barulho incomodo que me acordou, desliguei a música e voltei a dormir.

Acordei com meu despertador tocando The Pentecostal do Deicide, sim esse é o toque do meu despertador, escute os dez primeiros segundos dessa linda e doce melodia que tu vais me entender. Nada de soneca, isso apenas treina e deixa a sua preguiça mais forte. Banho tomado, pronto e arrumado, bora para o trabalho fazer o patrão mais rico, pois enquanto houver exploração do homem pelo homem nunca existirá um trabalhador rico. Pego o bonde que a tia da limpeza me indicou, a viajem é bem rápida a ponto de eu quase perder meu ponto por estar distraído com as mensagens matinais de alguém, chego cedo antes mesmo da padoca abrir, então acendo um cigarro e espero que ela abra, abrindo pego uma coxinha e um suco que são pagos com o VA, esse grande ‘beneficio’ que as empresas ‘pagam’ aos trabalhadores, tipo: nos de seu sangue pelos nossos lucros que nós te daremos o grande benefício de se alimentar. Louco pensar que para as empresas o trabalhador comer é um benefício... chego ao trabalho, como e espero a hora de ir embora, plantão tranquilo sem intercorrências, a não ser pela costumeira hemorragia causada pelo abocath mal pressionado na hora da punção em uma paciente, eu limpo toda a sangria na poltrona e no chão, então peço para a tia da limpeza dar um tapa lá depois que a paciente sair, tiro minhas vestes brancas que aparentemente foram ideia da Florence, porra Florence, sangue e roupas brancas nunca vão combinar, bato o ponto e vou embora.

Eu havia combinado de ir a casa de um camarada para tentar gravar a narração de um texto, então vou ao ponto que acredito passar o bonde que vai para a casa dele, estou a alguns anos sem viajar pelas linhas da cidade então estou um pouco perdido, dou sinal para o primeiro ônibus que se aproxima, subindo eu pergunto ao motorista/cobrador, função dois em um graças a uberização das funções de trabalho, se esse bonde passava em tal lugar, ele responde com gesto afirmativo movendo a cabeça, está calor e eu detesto o calor, se você gosta do calor você está errado e se diz que quem prefere o frio é elitista você é só burro mesmo, é claro que existem pessoas que sofrem com o frio, mas isso é culpa do capitalismo e não do gostosinho frio. Pelas voltas que o veiculo coletivo dá, eu noto que ele não vai passar lá, me emputeço quietamente e aviso meu camarada pelo zap sobre minha desventura e que cancelarei a visita a sua morada, combinando o encontro para uma próxima oportunidade, dou toda a volta com o coletivo que não passa lá e vou até o terminal central, centro esse que é formado apenas por um cemitério, uma igreja e o próprio terminal, por sorte se é que isso existe meu ônibus já está parado, eu entro e vou para casa.

Em casa vi que tinha esquecido o veneno de pernilongos na tomada e que a pastilha estava desaparecida, tirei as roupas para tentar se livrar um pouco do calor maldito e logo tomo um comprimido para a dor de cabeça causada pelo sol nas horas extras dentro dos bondes da cidade, dou play na música e começo a digitar. Escrevendo eu penso em qual destino eu darei aos meus livros, no momento eles apenas me ocupam um espaço que eu não tenho, talvez eu os doe, sei que isso vai doer mas, livros tem que ser lidos e não ficarem apenas empoeirando num canto, um dia quem sabe eu ainda tenha minha biblioteca para usar de cenário enquanto faço chamadas de vídeo com completos estranhos pela internet. Também divaguei em lembranças da lua, sei que ela está ali mas cada vez mais longe, isso me aborrece, aborrecido eu lembro que tenho que gravar a narração de um texto para o Radio Caos, imaginar um texto meu sendo transmitido para o mundo todo pelo meu programa favorito me deixa um pouco alegre, mas como disse o grande Gramsci “Otimismo da vontade, pessimismo da razão.” Então lembro que isso foi impedido hoje por um trabalhador precarizado e volto a ficar bastante aborrecido.


Nenhum chapeiro/roçador foi ferido durante essa narrativa.


Nenhum paciente foi ferido durante essa narrativa.


Nenhum motorista/cobrador foi ferido durante essa narrativa.


Nenhum pernilongo foi ferido durante essa narrativa.


Este texto é de responsabilidade do autor/da autora.

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