top of page

Livre


Um dia eu resolvi me deixar em paz. Resolvi deixar crescer os pelos da sobrancelha, porque dói para tirar. Porque ninguém nota. Resolvi parar de fazer escova no cabelo, mas isso foi porque é claro que um cabelo com volume traz mais vida para a pessoal. Resolvi também deixar de me querer viva, ativa, produtiva. Decidi que ia pedir a conta do emprego. Mas não sem antes falar para o meu chefe o covarde que ele era, o quanto era burro e incapaz. Porque era assim que me fazia sentir as vezes, quando na verdade o grande inútil era ele. Acordei naquela manhã disposta a pôr o mundo abaixo. Sai sem escovar os dentes e sem pentear o cabelo. Quando fechei a porta do apartamento bati bem forte, só porque sei que os vizinhos odeiam. E não foi diferente com a porta do bloco. Liguei o carro e sai deixando o portão bem arreganhado. A R R E G A N H A D O. Não demorariam a chegar as mensagens com fotos do portão aberto no grupo do condomínio. “Cuidado com a segurança dos demais”, eu quero é que os demais se lasquem. Demais, é exatamente isso que eles são. Demais. Quando cheguei na avenida resolvi buzinar por 2 quilômetros, os carros até saiam da frente para eu passar, se soubesse tinha feito isso antes. Quando cheguei na porta do prédio da empresa de telefonia onde eu trabalhava. Dei um abraço bem grande no porteiro e esmaguei com muito carinho a dona Ana da limpeza, as duas únicas pessoas que mereciam respeito naquele lugar. Quando cheguei no elevador a ascensorista me olhou com aquela cara de quem julga todo mundo, já soltei “O que foi?”, bem alto, que era pra ela se ligar que eu não estava para brincadeira. Todos me olharam assustados. E eu repedi: - O que foi? - O que foi? Mais duas vezes e ainda mais alto. Aí todos resolveram olhar para o outro lado e ficar quietinhos. Bem do jeito que eu esperava. Quando cheguei naquele andar pela última vez, empurrei a porta com o pé. - Cadê o Antônio? - Cadê o Antônio? Antônio era o babaca do meu chefe. – Ainda não chegou. Respondeu a Franciele puxa saco e cumplice do calhorda. - Será que seu Alberto sabe que ele não chega no horário? Vou ligar para ele para perguntar se ele sabe onde o Antônio está? – Mas você não pode fazer isso. - Não posso o que? - Alô! Gostaria de falar com o Senhor Alberto. Fala que é a Beatriz da Itaipu Binacional. A presidente. A Franciele quis dizer alguma coisa, eu só apontei o dedo para ela, que ficou quietinha. - Olá, Alberto, tudo bem? Você sabe do Antônio? Aquele da filial da Visconde de Nácar. Preciso falar com ele, mas já é o segundo dia que ligo esse horário e ele ainda não chegou. Desliguei o telefone. - Franciele, agora liga para o Antônio e avisa que o Senhor Alberto quer falar com ele. O Antônio chegou meia hora depois, mas aproveitei esse tempo para falar o que pensava para cada um daquele equipe. - Fernanda você é uma mulher fantástica, porque ainda está casada com aquele asno do João? Vá embora, mulher. Você não precisa dele pra nada. Tudo bem que você tem esse seus jeito meio monga e meio Maria Vai com as outras. Mas é guerreira, leva aquele besta nas costas. Vai, se liberta. - Franciele, você é uma mau caráter. E não vou te dizer mais nada pra não ter que lhe meter a mão. - Carlos, você já parou de passar a perna no pessoal aqui com aquela tua história de mãe doente, ou continua pegando as doações para gastar tomando whisky enquanto jogar pôquer? Nisso o Antônio chegou. - Seu Alberto me ligou? – Eu liguei para ele Antônio e perguntei porque você nunca chega no horário. – Mas... - Caladinho, Antônio. Só vim até aqui para te dizer que você burro, incompetente, irresponsável, mau caráter. E não vem com esse papinho de que vai me mandar embora, porque eu vim pedir a conta. Nunca mais na vida quero trabalhar com um inútil como você. Olha lá, o seu telefone está tocando, deve ser o Senhor Alberto. Saí, mas não sem arremessar para cima um amontoado gingante de folhas de papel que estavam sobre a mesa da Fernanda.  Quando entrei no elevador mais ninguém teve coragem de olhar para mim. Saí me sentindo muito bem. Mas enquanto dirigia sem rumo, senti um pouco de pena das pessoas que precisam se submeter a certos empregos, a certos chefes, a certas corporações. Senti vontade de tomar sorvete. Parei o carro e comprei um enorme. De chocolate e baunilha. Fiquei um tempo ali saboreando e pensando que milagre é esse que nos permite sentir o gosto das coisas. Mas a minha missão em busca da minha liberdade plena, não estava terminada. Fui até a casa da minha mãe tomar um café e fumar cigarro. Enquanto isso organizei uma lista de todas as pessoas para as quais eu tinha coisas para dizer...

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
52: O Peso e o Fio

Domingo, 4 de janeiro de 2026. O primeiro domingo do ano chega quase no fim, e eu aqui, cumprindo o pacto. Cinquenta e duas pela frente. O ano começou pesando: na quinta, dia 1, uma advertência no tra

 
 
 

(41) 3031-5355

Rua Julieta Vidal Ozório, 413 - Centro, Araucária - PR, 83702-060, Brazil 
CNPJ 29.801.135/0001-38
F D D Pesquisa e Produção Artística Ltda

*A política de funcionamento e inscrição dos nossos cursos está disponível no regulamento, na página Inscreva-se.

**A política para reembolso de ingressos está disponível no próprio ingresso.

  • facebook
  • googlePlaces
  • instagram

©2019 by Casa Eliseu Voronkoff.

bottom of page