PARTE 1 – FERIDA

A balconista que me atendia todas as manhãs era como uma gata. Havia algo nela, com sua simpatia reservada, sem sorrisos, que sugeria a subjetividade felina. Eu senti, depois de duas semanas pedindo o mesmo café com leite sem açúcar, que ela estava sempre, ostensivamente, lambendo uma ferida recém-aberta.


Portava-se como um animalzinho acuado, uma gatinha assustada, sem saber muito bem o que fazer e agindo por instinto, desejando que aquele cuidado incansável a fizesse parar de sangrar. Por vezes, ela ficava um pouco arisca, em momentos assim não quer ser tocada, não vai ronronar. Para essa criaturinha, há tão pouco tempo machucada, tudo agora é perigo, tudo a fará se ferir.


Ela ia de lá para cá sem movimentos bruscos. Não pulava escandalosamente do café para a estufa dos salgados. Tentava proteger seu machucado aberto, que visivelmente ainda doía. Então parava em um canto e voltava a se lamber, com cuidado, esfregando metodicamente a áspera linguinha, um remédio no figurado, glóbulos brancos simbólicos.


Era um espetáculo belo e sensível. Sua dor flutuava no ar, expressa apenas pelo olhar lânguido, nunca por qualquer reclamação pronunciada. Aquela frágil gatinha, com seu corpinho pequeno, vulnerável a toda a agressão do mundo, não entendia muito bem o que acontecera. O que será que vilipendiara sua pele, lacerando o invólucro da sua alma, vertendo seu sangue em sofrimento?


Pior do que a dor era não saber de onde ela vinha, porque ela estava ali, como aquilo acontecera. Não passava pela sua cabecinha instintiva o verdadeiro significado de tudo. A dor era apenas uma reação bioquímica pouco compreensível. É difícil entender a razão do sofrimento. Qual era a motivação de seu próprio corpo para martirizá-la? Ela não sabia. Mas continuava, sem miar, lambendo aquele ferimento...



continua...


Este texto é de responsabilidade do autor/da autora.

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