PARTE 2 – FERINA

Tudo começou quando passei a não mais saber a diferença entre epilepsia e esquizofrenia. Flashs de luz bruxuleante piscavam em cada neurônio da minha cabeça. Ribombavam como explosões de minúsculas crises convulsivas e qualquer que seja seu nome técnico. No entanto, elas falavam comigo. Eu ouvia as vozes dos meus déjà-vus ecoando.


Eu perguntava quem gritava mais alto na aldeia dos sonos perdidos: a insônia ou as horas mal dormidas. Quem cantar e dançar ganha esse concurso hiper-realista. Se fizer uma performance ritual então, sou toda sua!


Fico uma fera, me irrito. Desejo que tudo se foda, mas não fodo nada. Estamos em processo de decomposição, o processo evolutivo é na verdade esqueletivo, sempre rumo aos ossos.


Como podemos saber o exato momento em que ficamos completamente malucos? Como pode alguém deixar de ser aquela única coisa que sempre foi? Eu sempre fui normal. Agora você não é mais. Ainda discuto e tento entender o que é ser normal. O que você acha?


Nossa pele vai se deteriorando. Corrompida pela própria vida. A vida que cria é a mesma que mata. O mesmo ar que respira é aquele que te sufoca. E a dor... Bem, a dor. Morrer não dói. Viver é perigoso. Estamos sempre correndo risco de vida, risco de morte. De morrer antes de viver. Tudo ao mesmo tempo, vamos perdendo gordura, carnes, responsabilidades. Até mesmo nossas faculdades mentais. Diferenciar doenças. Tornamo-nos criaturas repugnantes, pele e osso. Processo esqueletivo da espécie. Quem não quer ser o mais forte, o mais bem adaptado?


Eu minguava sem perceber. Não sabia qual doença tinha. Se é que alguma daquelas coisas era de fato uma enfermidade. Como alguém pode ser considerado doente em um mundo que de são não tem nada?


Passei muito tempo conversando com as minhas luzes. Com aquelas matracas enérgicas. Eu parava sem aviso, era um flash de luz, de consciência cósmica, de sabedoria de que aquele momento estava sendo reprisado diante dos meus olhos. Epilepsia ou esquizofrenia?


Fiquei esperando o golpe final, a ruína da minha sanidade. Mas a queda nunca veio. Enquanto isso, a coisa continuava doendo. Não tive convulsões espasmódicas, mas aquela sensação angustiante se repetia infinitamente, com frequência cada vez maior.


Passei a acreditar que era o universo tentando falar comigo, mandando sinais. Era fato para mim que eu já havia vivido aquela vida inteira antes, e todas as pequenas coisas dentro dela. E doía, como doía...



continua...


Este texto é de responsabilidade do autor/da autora.

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