Chocolate amargo



Domingo de Páscoa, meio expediente obrigatório.

Ainda trazia consigo a alegria das coisas que cheiravam à infância. A mãe sempre permitiu que sonhassem doçuras, embora a vida evidenciasse mais escassez do que fartura. A cesta partilhada era feita pelas mãos carinhosas dela que picotava, às escondidas, os papéis de seda coloridos. Além dos doces preferidos, três modestos ovos de chocolate ( desprovidos da exuberância dos papéis multicores) faziam parte do arranjo caprichoso. Somente uma vez houve um ovo de Páscoa de verdade. Haviam voltado da missa naquele instante. O vizinho (bom velhinho dos tempos de meninice) chamou do outro lado da cerca. Junto com o sorriso costumeiro trazia, desta vez, um ovo de Páscoa. O chocolate mais delicioso que provou na vida estava guardado naquele deslumbrante embrulho de celofane.

Era, outra vez, domingo de Páscoa. A situação econômica não estava muito melhor agora, mas, já ganhava alguns trocados trabalhando fora, depois do colégio. A preguiça de acordar cedo logo foi substituída pela euforia domingueira. Os clientes também vestiam mais sorrisos aos domingos e levavam mais pães doces. Mas, não era só domingo, era domingo de Páscoa e dois ou três cumprimentos vieram acompanhados de chocolate naquela manhã. Os pães doces se foram mais depressa, assim como se foram as tortas e bolos da vitrine. Viu o patrão distribuir ovos de Páscoa aos funcionários que encerravam o turno no início da manhã. Era fato que também receberia o mimo. Já podia antecipar a alegria da irmãzinha quando chegasse em casa com o embrulho reluzente. O patrão fechou as portas às treze horas. Como de costume, ela finalizou a limpeza dos balcões, apanhou os pertences e despediu-se. Ele falou num tom de quem tinha acabado de lembrar “Vem aqui pegar teu presente!” e foi entrando na sala anexa, que funcionava como escritório. Acompanhou-o sem qualquer precaução. Ele posicionou-se na porta com o “presente” na mão. “Troco o ovo por um beijo!” Enrubesceu de raiva e frustração. Já o conhecia a tempo suficiente para não sentir medo. Sarcasticamente, agradeceu. Sugeriu que levasse o presente para a esposa, mas que evitasse contar que beijara padeiros e balconistas naquela manhã. Tentou forçar passagem, porém, antes que pudesse revidar viu-se presa pelos pulsos, encurralada entre a parede e o corpo dele. Boca e língua pegajosas violentavam furiosamente todos os cantos que alcançavam. Cerrou os lábios, impulsivamente, mas, não pode evitar o gosto podre daqueles minutos intermináveis. Por fim, desprendeu-lhe as mãos. Permaneceu imóvel, encarando-o “É agora que você me estupra?” Ele riu prazerosamente. “Não diga besteira, foi só um beijo”. Colocou-lhe o “presente” nas mãos, desejou-lhe “Feliz Páscoa” e seguiu somando as notas do dia com a normalidade de quem encerra o expediente. Ela alcançou a rua se odiando! Não conseguiu gritar como uma louca, não lhe acertou a cabeça com o peso de papel (como gostaria de ter feito) e não contaria absolutamente nada aos pais. Precisava do emprego. O brilho nos olhinhos da pequena salvou parte do dia.


Este texto é de responsabilidade do autor/da autora.

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