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Fernão Capelo Urubu

José Roberto Torero

Era uma manhã chuvosa. Parecia que todos os deuses tinham decidido fazer xixi no mundo ao mesmo tempo.

O mar estava agitado e, a dois quilômetros da costa, as marolas empurravam um cadáver de um lado para outro.

O corpo pertencia a um escritor de livros de auto-ajuda. Pelo visto, seus livros não o ajudaram muito.

Mas esta história não é sobre este escritor, e sim sobre os urubus que voavam sobre ele. Mais especificamente sobre um deles, chamado Fernão Capelo Urubu.

Enquanto todos os outros do seu bando sobrevoavam o corpo, preparando-se para dar um vôo rasante e tirar um naco de carne do defunto, Fernão Caelo Urubu treinava.

Hoje ele estava se dedicando a fazer um loop.

Mas Urubu era um tanto inábil, um tanto desastrado, um tanto atrapalhado, e por isso seu loop acabou num tremendo tombo.

E não era a primeira vez. Urubu sempre acabava se espatifando no chão.

Os urubus são um bocado feios, mas voam com muita classe. Fazem curvas abertas, mergulhos delicados e pousos suaves. Estas três coisas, até que Urubu conseguia. Mas ele queria mais. Queria fazer curvas em espirais, mergulhos radicais e pouco verticais.

Queria mas não conseguia.

Suas quedas espetaculares faziam com que todos os outros urubus rissem dele.

Até seus pais faziam piadas com suas manobras atrapalhadas. O pior eram os apelidos que lhe davam, coisas como Usuburro. Urubundão e Urubum!

Mas Fernão Capelo Urubu não desanimava e continuava tentando aprender a fazer coisas diferentes no ar. Apenas decolar, planar e aterrisar era pouco para ele.

“Por quê?, por quê?”, perguntava-lhe a mãe. “Por que é tão difícil para você se contentar em ser comum?”

​Então Urubu coçava sua cabeça com sua asa direita (um tanto dolorida pelo último tombo) e respondia:

​“Porque eu quero ser diferente. Quero fazer coisas fantásticas, quero entrar para a história, quero ser lembrado por gerações e gerações de urubus.”

​“De onde você tirou essa idéia, meu filho?”

​“Ouvi dizer que uma gaivota inventou um jeito diferente de voar e escreveram um livro sobre ela”.

​“O escritor pode ter exagerado, meu Urubuzinho. Eles sempre exageram para vender mais livros”.

​“Não interessa. Eu quero ser um Urubu importante e ponto final! Quero que as pessoas usem camisas com meu nome, que façam um filme sobre minha vida. Eu quero ser um grande urubu!”

​O pai decidiu falar uma coisa:

​“Fernãozinho querido, o inverno está chegando. Daqui a pouco teremos poucos cadáveres para comer. Se você tem necessidade de ser um grande urubu, não se esqueça que tem de ser também um urubu grande”.

​Urubu coçou a cabeça com a asa esquerda (que tinha umas partes sem penas por causa dos tombos), e com este gesto ele quis dizer que não estava entendendo nada.

​O pai entendeu e pôs-se a explicar seu jogo de palavras:

​“É que você tem que comer! Se não comer vai ficar ainda mais magro e morrer. Aí será só um esqueleto e ninguém dá muita bola para esqueletos”.

​Nos dias seguintes, Fernão Capelo Urubu saiu com o resto do bando e se comportou como todos os outros. Voou normalmente pela praia até que avistou uns peixes mortos e todos forma comê-los.

​E ele gostou da camaradagem entre sua turma de urubus. Ali todos se conheciam e sabiam os nomes uns dos outros, era divertido dividir o que encontravam e apostar para ver quem achava cadáveres primeiro.

​Mas, no fundo, ele ainda sentia o desejo de voar mais alto, de ser mais famoso, de ser o maior urubu de todos os tempos, cheios de fãs, de seguidores, de adoradores.

​Então, no dia seguinte, não foi com o bando e voltou a ensaiar seus vôos.

​Desta vez Urubu levou tombos de todos os tipos, de A a Z. Falhou nas curvas, nos spins, nos tornados, nos duplos, enfim, em tudo. Ele não era um urubu diferente, um urubu iluminado.

​Talvez por isso, por entender que não era um urubu especial, é que ele tentou um mergulho final.

​Fernão Capelo Urubu planejou subir o mais alto que podia e então dar um grande mergulho em direção ao mar. Aí, no último momento, ele faria uma curva para cima.

​Seu sonho era quebrar o recorde urubal de velocidade. Ou, talvez, uma tentativa de suicídio. Enfim, era uma mistura de desespero e ambição, coisa que raramente dá bom resultado.

​Urubu decidiu fazer sua tentativa ao pôr-do-sol.

​Quando ele começou a subir, o céu estava parecendo uma paleta de cores, com tons vermelhos e alaranjados perto do horizonte e um degradé de azuis em direção ao outro lado, onde já se podiam ver algumas estrelas.

​Urubu subiu o mais alto que pôde.

​Olhando lá de cima, o bando de urubus que sobrevoava o mar parecia um bando de formigas em volta de uma cigarra morta.

​Então urubu respirou fundo, apontou o bico para baixo e começou sua descida.

​Os outros urubus começaram a ficar cada vez maiores e ele percebeu que iria passar bem no meio do bando. Mas não havia mias como desviar. Sua velocidade só aumentava. 40, 60, 80, 100, 150 quilômetros por hora! Os urubus já estavam chegando, então Urubu, como qualquer outro urubu faria, fechou os olhos e torceu para que não batesse em ninguém.

​Deu sorte. Não se chocou contra nenhum outro urubu. Em compensação, escutou os piores palavrões urubuzais. Gritaram para ele:

“Asa manca!”

“Volta para o ovo!”

“Cérebro de gaivota!”

“Comedor de minhoca!”

“Filho de uma coruja!”

Mas ele não se importou com estes xingamentos. Seu problema era outro. Sua velocidade continuava aumentando e ele não sabia o que fazer. A cada instante o mar chegava mais perto e ele agora ia a 200 quilômetros por hora. Não, agora já eram 220. E agora, 250.

Então, quando ia a 300 km/h e estava a apenas alguns metros do chão, decidiu fazer sua curva. Moveu sua asa um pouco e...

... e estatelou-se no mar.

Seu movimento não foi o suficiente para fazer uma curva e o pobre Fernão Capelo Urubu deu com os burros n’água.

Lá em cima os outros urubus riam um bocado.

“Eu queria que eles estivessem me aplaudindo, mas estão rindo de mim”, pensou

Urubu. “Eu não tenho mesmo nenhum talento especial... Acho que jamais terei um urubusto em praça pública...”

Fernão Capelo Urubu ficou na água algum tempo, até que passasse sua dor de cabeça. Depois pôs o rabo entre as pernas (e isso é uma metáfora, posto que os urubus não têm rabos), e começou a voar lentamente na praia.

Estava abatido e triste. Não seria mais uma celebridade, um iluminado. Doravante seria apenas Fernão Capelo Urubu, um urubu como outro qualquer.

No dia seguinte, de cabeça baixa, foi voar com os outros.

E, para sua surpresa, não foi tão ruim. Ele achou divertida a camaradagem com os outros urubus, gostou de voar em grupo e riu das piadas do pessoal, digo, do urubuzal. E elas eram muitas. Por exemplo, enquanto dividam a carniça de um cachorro que chegara à praia, os urubus mais velhos diziam coisas como:

- Isso é que é hot-dog!

- Pena que não temos catchup!

- Nem dpgchup!

Então, Urubu arriscou uma piada: “Vamos fazer uma prece para agradecer o cão nosso de cada dia”.

Todos caíram na gargalhada com o trocadilho. A troca de pão por cão tinha sido muito boa e surpreendeu os outros urubus, afinal eles só tinham visto Fernão levando tombos e se espatifando por aí.

Com o tempo, as piadas e a camaradagem, Urubu foi se afeiçoando aos outros urubus.

Ficou muito amigo de Urubolino, tornou-se quase irmão de Urubudson, fazia apostas com Uruberto e jogava carniçabol com Urubaldo.

Juntos, eles fizeram um belo ninho coletivo em cima do Penhasco da Morte, atacaram um coiote que correu atrás deles e comeram, riram e foram felizes.

Como se esta boa vida não bastasse, Urubu ainda conheceu Urubela.

Os dois acabaram se casando, ou melhor, acasalando, e tiveram dois filhos, ou melhor, filhotes: Urubu Júnior e Urubelinha.

Nestes anos todos, Urubu nem lembrava dos tempos em que queria voar de um jeito único, quando queria ser um urubu ilustre.

Nestes anos todos, Urubu aprendeu que ser urubu comum não era tão dolorido, desde que ele pudesse ter bons cadáveres para comer, um amor e muitas risadas.

***

Se este fosse um texto feito para ganhar muito dinheiro, assim como aquele da gaivota, eu diria que um dia apareceram dois urubus de penas brancas, cintilantes como a luz das estrelas, e levaram Urubu para um lugar melhor, um céu onde ele aprenderia coisas fantásticas e conheceria urubus superiores, especiais. Fernão Capelo Urubu ficaria numa espécie de paraíso por algum tempo e se aperfeiçoaria ainda mais com um urubu sábio de nome chinês. Porque as pessoas gostam de pensar que depois da morte há alguma coisa. E, mais estranho ainda, alguma coisa melhor do que este mundo.

Mas, como sei que não ficarei rico com este continho, escrevo apenas que Urubu morreu. Ele teve uma vida parecida com a de muitos outros urubus e acabou morrendo, como todos eles. E, se há uma verdade que todos os urubus conhecem, é que todos os seres vivos morrem um dia e viram carniça. Até os próprios urubus.

Então seu corpo ficou na praia deserta onde ele tinha morrido e foi apodrecendo aos poucos. Agora, em vez de ele comer animais mortos, foram outros animais que o comeram: formigas, caranguejos e baratas-do-mar. Sem falar num monte de vermes e bactérias.

Em pouco tempo, só os ossos de Fernão Capelo urubu sobravam. E, depois de mais algum tempo, até eles iriam desfazer e se misturar com a areia.

É claro que isso não é um final feliz.

Mas também não é um final triste.

É só um final comum. O final comum.

Ou, talvez, nem seja um final, apenas o meio da história, já que este é o capítulo

2 e ainda há o 3.

* * *

Neste último capítulo, o que os urubus e as pessoas gostariam de ler é que Fernão Capelo Urubu voltou do mundo dos mortos e, com sua sabedoria, ensinou a outros o segredo da felicidade.

Mas não é isso que acontece nesta história.

Aqui, Fernão Capelo Urubu continua morto, mortinho da silva.

Ele não levantou da tumba nem teve seguidores.

Mas as coisas que ele fez sobreviveram. Seus filhos, bem criados, foram bons urubus, e as praias que ele limpou (comendo os cadáveres que apareciam por lá) deixaram mais gente saudável. Ele foi só um faxineiro da natureza. Fez sua parte, foi feliz e mudou um pouco o mundo. A humanidade, ou melhor, a urubunidade, ficou um pouco melhor com ele.

E não se pode pedir mais que isso de um urubu.


José Roberto Torero Fernandes Júnior, conhecido como Torero, é um escritor, cineasta, roteirista e colunista de esportes brasileiro. Formado em Letras e Jornalismo pela Universidade de São Paulo, é autor de diversos livros, como "O Chalaça", vencedor do Prêmio Jabuti de 1995. Wikipédia




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