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São os cabelos das mulheres

Marina Colasanti

Naquela aldeia de montanha perdida entre neblinas, a chuva havia começado há mais tempo do que era possível lembrar.


Só água vinha do céu, em fios tão cerrados que as nuvens pareciam cerzidas ao chão. As plantações haviam-se transformado em charcos, as roupas já não secavam junto aos fogos fumacentos, e pouco ou nada restava para comer.


Reuniram-se os velhos sábios em busca de uma resposta, e longamente deliberaram estudando as antigas tradições. - São os cabelos das mulheres - disseram por fim. E obedecendo aos perga- minhos, ordenaram que fossem cortados. Na praça da aldeia, desfeitas tranças e coques, soltos todos os grampos, os longos fios que chegavam à cintura foram decepados rente à raiz, e en- tregues à chuva. Todos os viram descer na correnteza, ondulantes e negros. Todos se encheram de esperança, enquanto as mulheres abaixavam a cabeça deixando a água escorrer em filetes sobre a pele nua.


De fato, pouco demorou para que as nuvens levassem sua carga em direção ao vale, desfazen- do-se ao longe. E o sol acendeu-se num céu tão enxuto e limpo que parecia novo. Aquecia-se ao sol a antiga umidade guardada entre pedras e grotas. Vindas daquele calor, talvez, daqueles vapores abafados no escuro silêncio, longas serpentes negras começaram a deslizar para a luz.


Os homens só se deram conta da temível presença quando os campos abaixo da aldeia já es- tavam invadidos. Com asco e horror as encontravam de repente enroscadas no cabo de um enxada, no fundo de um cesto, ou brilhando entre os sulcos. Eram tantas. De nada adiantavam caçá-las; cortadas ao meio ou degoladas por facão ou foice multiplicavam-se, cada parte adqui- rindo vida própria e afastando-se como se recém-saída do ovo.


Quase não lhes bastassem os campos, começaram a deslizar em direção à aldeia. Em breve bastou afastar um móvel, abrir um armário, para encontrar uma serpente enovelada. Qualquer cobertor, qualquer travesseiro, qualquer manta ou almofada podia ser seu ninho. E entre as achas de lenha, entre as talhas de azeite, entre os gravetos e as cinzas do fogão, entre os grãos nas despensas, por toda parte e em todo canto cobras ondulavam suas espirais.



- São os cabelos das mulheres! - exclamaram afinal os aldeões sem necessidade de reunir os sábios. E as mulheres riram, escondendo o rosto nos lenços e nos xales com que cobriam suas cabeças. - Acabem com isso! - ordenaram-lhes os sábios. E não se referiam ao riso, mas às ser- pentes. E com voz que não admitia réplica, repetiram - Acabem com isso, mulheres!


Mas como acabar com o flagelo se lhes faltava o remédio? - responderam as mulheres. E acres- centaram - Cabelos. Para acabar com esses, precisamos dos nossos. E cabelos elas não tinham. Parecia inútil procurar. Por baixo dos lenços apenas uma leve penugem despontava. Nenhuma mulher havia sido poupada. Ainda assim procuraram de casa em casa, mesmo nas mais distan- tes, até que, escondida entre as saias das irmãs mais velhas no fundo de um casebre, encon- traram uma menina. Uma menina pequena, tão pequena que ao tempo das chuvas havia sido confundida com um menino. Uma menina pequena, com um rabichinho magro.


Desatado o cordão que prendia o rabicho, os cabelos desceram cobrindo as orelhas. A mãe colheu um fio, enfio-o numa agulha. Todos olhavam. Todos viram a mãe levantar uma pedra, suspender a serpente que ali se abrigava e, com pontos firmes, coser-lhe a boca. Todos viram a serpente afastar-se deslizando ladeira abaixo. O rabicho da menina já era apenas um fio quando a última ondulação negra desceu a encosta e a grama fechou-se sobre o seu rastro.


E passado algum tempo, a serenidade havia voltado à aldeia. Sem que, porém, viesse com ela a alegria. O frio demorava-se, sem abrir caminho à primavera. As mulheres caminhavam no vento com a cabeça coberta, todas elas envoltas em panos. As brotações tardavam, as sementes não germinavam na terra gelada, nem chegavam as aves migrantes.

Ainda fazia frio na manhã em que a primeira mulher tirou o xale. Sacudiu a cabeça. Os cabelos que haviam crescido, rodearam-lhe o rosto. E porque aquela havia tirado o xale, uma e logo ou- tra a imitaram, uma quarta desfez sobre a testa o nó que prendia o lenço, cabeças de mulheres assomaram às janelas, descobertas. Os cabelos, lisos, crespos, ondulados, dançavam livres farfa- lhando como folhas, cintilaram ao sol que de repente não parecia tão pálido. Em algum ponto daquela manhã, a primavera pôs-se a caminho.


- São os cabelos das mulheres - disseram os homens farejando o ar que se fazia mais áfino.


E sorriram.




Marina Colasanti

Marina Colasanti é uma escritora, contista, jornalista, tradutora e artista plástica ítalo-brasileira nascida na então colônia italiana da Eritreia. A autora publicou mais de 70 obras para crianças e adultos.



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