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Os brutos também amam

Sérgio Vaz

Era um domingo de inverno, há quase trinta anos, quando eu conheci o amor pela primeira vez. Chegou a mim discretamente como se não quisesse fazer barulho para não me espantar nem causar estranhamento. Enquanto dançava com os olhos fechados e o peito aberto, desfilava pelo baile, sem sair do lugar, carregando nos braços aquela que seria a lembrança mais feliz da minha vida: o primeiro amor. Não me recordo bem se era Marvin Gaye (“Let’s get it on”) ou Bee Gees (“Reaching out”) que rolava nas picapes, só consigo me lembrar de estar ali, com os lábios ansiosos pelo fogo desconhecido, implorando aos céus que aquele momento, que ainda nem havia acontecido, nunca acabasse. Sem o menor traquejo com a poesia, e devoto da Santa Adolescência das Bocas Desamparadas, recitava em meus pensamentos coisas do tipo: “Deus, por favor, faça minhas pernas pararem de tremer”. Se alguém um dia se encontrar com Deus, e se realmente Ele existir, pergunte, Ele vai confirmar. Eu ainda não a tinha beijado. Pelo menos não pessoalmente, mas em sonho... com os olhos... Enquanto a música brincava de ser feliz às minhas custas, colado àquele anjo, fui me deixando levar cantando baixinho o refrão ao seu ouvido: “Letis guere riron...”. Letis guere riron?????! Caramba, se não sei inglês hoje, imagine com quinze anos, coitada. A adolescência tem cheiro de almíscar, sei disso porque esse era o perfume que ela usava nesse dia, e durante muito tempo esse aroma permaneceu impregnado na minha memória. Tirando o cheiro de terra depois da chuva, almíscar tem cheiro de anos incríveis. Sentindo o aroma da vida, fui lentamente virando meu rosto para o encontro daquela boca linda, sorrateiramente, como um colibri que rouba saliva da flor. Havia pensado nesse momento há semanas, mais precisamente, quinze anos. Nunca vou esquecer aquele beijo. Até porque foi o meu primeiro pra valer, no rosto não conta, sem amor então... E, segundo, porque quase quebrei o sorriso dela. Beijei-a por uma tarde inteira com todas as bocas que tinha o meu pequeno coraçãozinho de menino apaixonado. Que tarde. E que boca. Beijei-a com todos os meus cincos sentidos, e quase fiquei sem os sentidos por conta disso. Quase que morro no meu primeiro dia de vida. Com os olhos fechados, beijei-a como quem agradece por estar vivo. Por conta dessa troca divina de saliva, e, na dúvida, nunca mais cuspi no chão. Nos anos setenta, época mais brava da ditadura no Brasil, eu estava ali, com a cara cheia de espinhas, exercitando a minha revolução: o primeiro amor. Resolvi escrever sobre isso porque acabo de receber o convite de casamento de dois grandes amigos. E como sou testemunha desse amor, quero lembrá-los de que, por mais bela que seja a lembrança do primeiro beijo ou do primeiro amor, nada, absolutamente nada é mais importante que o último. Ah, também me lembrei de uma outra coisa, os dias não envelhecem. E todo dia é pra sempre.

(setembro/2007)

Do livro Literatura, pão e poesia. Ed.


Sérgio Vaz é um poeta e produtor cultural brasileiro. Nasceu em 1964, em Minas Gerais e lançou seus primeiros livros de forma independente. Seu primeiro livro publicado por editora, foi Colecionador de Pedras, pela Global, em 2007.


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