Conte com a gente...

DAQUI Luci Collin Olho o tecido de listras. Vermelho verde e marrom claro vermelho verde e marrom claro. É uma toalha estendida no chão. A mesma toalha de todos os dias e é ali que comemos com o sol ardendo sobre nós. É assim que se faz neste lugar. Não sei quantos anos eu tenho. Sete talvez. Estamos sentados em volta dum enorme prato de farinha misturada com carne de carneiro. Minha mãe faz um movimento com a cabeça e isso significa que podemos começar a comer. Cada um avança com sua colher de madeira e se serve, vai se servindo diretamente do enorme prato. Minha mãe está quieta. Como sempre. É muito magra. Usa um lenço azul na cabeça. Quase nunca vi os cabelos da minha mãe. Tem mais de dez filhos. Felizmente a maioria é de homens — só nós três que não. Nas mãos cheias de calos os anéis dançam. Aqui neste lugar as mulheres casadas usam vários anéis, mas eu ainda não sei o que significam. Meu irmão mais velho morreu no primeiro ano da guerra. Foi em Eifaés. Olho pra escada branca escavada na rocha. Tenho orgulho. Os degraus exatamente do mesmo tamanho. São perfeitos. Foi feita pelo pai do meu avô. Eu não sei como ele se chamava. Minha irmã, essa aqui do meu lado, vive rindo de tudo — não entendo bem por quê. Não sei nem se eu gosto muito dela. Tenho um irmão que trabalha na companhia de extração de hulha. Quando eu pedi pra ele me explicar como é o trabalho lá ele disse: nem dá pra contar. Sempre tenho fome. Hussein avança na comida, Messali também. Têm fome. Daqui a dois dias Messali vai embora. Vai trabalhar em Onme. Ferhat partirá no mês que vem (vai sobrar mais comida sem eles, pensei) pra um lugar com montanhas perto do mar. Foi lá que o pai do meu avô viveu. Plantou muitas figueiras. Messali tentou conseguir emprego nas planícies, mas a região não presta pros vinhedos. E ele teve que voltar. Voltou magro. Eu levei um susto quando vi e fiquei mais triste. Os homens daqui não sabem fazer muita coisa. Meu avô sabe. Foi ele que fez as colheres e o prato. De madeira. Meu pai veio de um lugar onde não chove. Não chove nunca. Ele tem o rosto escuro e uma barba rala e branca. Ele tem os lábios muito grossos e umas rugas fundas na testa. Muito fundas. Eu queria passar a mão ali pra sentir. Tenho dez anos talvez. Nunca falei com o meu pai. Meu pai é um homem sempre quieto. Também é triste eu acho. Não sei. Perdeu um braço na mina em Bechiara. Meu avô conversava bastante comigo. Foi ele que me explicou que se você dividir em dez este território onde eu nasci nove partes serão de deserto. Ele riscou a areia do chão e disse: esta região se chamava Hiareb n-Housat. O nome ficou na minha cabeça. E volta. É sempre a mesma paisagem aqui a mesma comida pouca e a minha mãe sem dizer uma palavra. Quando eu era bem pequena ela cantava enquanto escolhia lentilha. Cantava baixinho. Passava semanas separando as pequenas pedras dos grãos. Agora ela olha sempre pra baixo. Meu avô plantava trigo quando era moço. Eu tenho doze anos talvez. A cidade onde eu nasci no passado se chamou Teefsium. Os berberes vivem nas montanhas. Berbere é uma palavra parecida com bárbaro (é como os romanos chamavam os homens das montanhas, meu avô me ensinou isso também). Eu vivo numa aldeia. As casas são amontoadas. Os irmãos que ficaram cultivam trigo e cevada nas encostas. Na época das frutas dá damasco. E também dá romã. Casaram a Nastiha com um homem que levou ela embora num cavalo baio. Ela nem sabia disso mas não reclamou. O pai deu um abraço nela antes dela partir. Abraço pela metade. No inverno o pai abandonava a casa de pedra e ia morar numa tenda. Pastoreava as ovelhas perto de Giskrat. O pai é triste. Meu irmão mais velho morreu em Eifaés. Lá tem vales férteis e tem desfiladeiros com água da chuva. Quando a minha mãe morreu tiraram os anéis dos dedos dela. Eu queria ter ficado com um. Ferhat mandou uma enorme caixa de madeira pro pai. Tinha alcachofras. O pai ficou olhando. Durante dias a caixa ficou ali no pátio. Durante dias. Não comeu e não deu pra ninguém. As alcachofras murcharam e depois apodreceram. E aí ele apenas apontou pra caixa: era pra eu jogar fora. Então eu vi as alcachofras secas — me lembrei das mãos da mãe. Sem os anéis aquelas mãos não pareciam mais as dela. Daqui a dois anos vou fugir desse lugar. Antes que o pai me case. Vou fugir até aquela cidade grande que eu vi na revista que o Arouj guardava na mala dele. Vou trabalhar em Seaba porque tem o porto. E o Arouj disse que é de lá que saem os barcos. Depois de três semanas os barcos chegam na cidade. Lá cada pessoacome num prato só seu. E é isso que eu mais quero ver.

Luci Collin (Curitiba, Paraná, 1964). Escritora, tradutora, professora universitária, musicista. Sua obra se destaca pela experimentação e pela abordagem de temas da pós-modernidade, como as metanarrativas e as crises identitárias. Transitando por gêneros como a poesia, o conto, o romance e o teatro, investe estruturalmente na musicalidade e na fragmentação textual.

8 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo