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Fel Javier Contreras


⠀⠀⠀⠀⠀Roberto sente um desassossego irracional, uma amargura que nasce no estômago e sobe pela garganta até a boca. Nesses últimos dias, uma náusea intermitente o controla e volta e meia ele tem a impressão de que vai expelir algo. Preocupado, aciona seu médico particular para uma visita e os exames de praxe. ⠀⠀⠀⠀⠀“Ansiedade, Dr. Roberto. Este momento do mundo faz muitas pessoas se sentirem assim. É a quebra do paradigma da rotina...” ⠀⠀⠀⠀⠀O médico só tem saído de casa para atender pacientes como Roberto. Como o diagnóstico da maioria deles quase sempre é previsível, traz na maleta um ansiolítico poderoso e recomenda que circule pela ampla casa e pelo quintal, que faça exercícios físicos e execute tarefas cotidianas. A verdade, porém, é que Roberto já vem fazendo tudo isso por conta própria e nada adianta. Com o médico já de saída no portão externo, resolve arriscar: ⠀⠀⠀⠀⠀“Acha possível ao menos uma volta com o cachorro pelo bairro?” ⠀⠀⠀⠀⠀O médico olha ao redor do casarão, um palacete da primeira metade do século XX todo reformado e ladeado por um belo jardim, por uma piscina em curva e uma estufa de vidro repleta de orquídeas. Ele balança a cabeça, bufa, diz a Roberto que ele tem restrições de saúde e de idade, que as ruas estão sendo monitoradas, que ele é um privilegiado. Roberto meneia a cabeça positivamente. Entretanto, está na casa há dois meses e não aguenta mais. Os empregados já não vão. É obrigado a pedir comida todos os dias. Tudo está uma bagunça. Há excremento de cachorro por todo o lado.  ⠀⠀⠀⠀⠀Vive apenas com sua mulher, Ana Estela, mas a casa é tão grande que às vezes ficam o dia inteiro sem se ver. Ao contrário dela, que tem a habilidade de não ver as horas passarem com seu smartphone, Roberto é um homem à moda antiga, não gosta de tecnologias. Tem prazer em tratar dos assuntos ligados à sua holding sentado em uma sala de reuniões. De terno e gravata. Olho no olho. Com uma caneta na mão a decidir o futuro. Como se fazia antigamente. Talvez o fato de ter fechado algumas unidades de sua rede o tenha deixado exasperado daquele jeito. Para a ruína basta um pequeno passo, pensa. ⠀⠀⠀⠀⠀Vai até a enorme casa de Hans. Ele não gosta daquele cachorro e acha que o sentimento é recíproco. Na verdade, o poodle gigante e branco de Ana Estela o deixa constrangido. Nunca saiu para passear com ele na rua, mas precisa de uma justificativa caso seja flagrado. Apanha a coleira e Hans solta um grunhido grave e interno, mas cede. Roberto decide ir sem a máscara. Pensa que seria incoerente querer um pouco de liberdade usando aquilo. Abre o portão lateral e dá alguns passos. Respira fundo. Tenta rememorar o cheiro peculiar de dama-da-noite, mas só o que sente é o fedor do lixo acumulado nas ruas. Viu na tevê que os lixeiros estão em greve após a morte de dezenas deles. Circula um pouco. Faz tempo que não anda por ali. Usa o carro para tudo e, a pé, a perspectiva é outra. Parece um estranho na sua própria rua. Hans puxa a coleira com uma força descomunal em direção à grande praça do bairro. Roberto fica nervoso, o cão está atrapalhando seu passeio noturno. Dá-lhe um safanão e um chute leve nas costelas, mas não adianta. Só consegue ganhar ainda mais a antipatia do animal, que rosna para ele. É incrível como as praças e os parquinhos sempre são assombrados por vagabundos, pessoas improdutivas incapazes de gerar qualquer tipo de retorno à sociedade e loucos, Roberto pensa assim que se aproxima do lugar. Não lembra daquela praça estar assim, ao deus dará. Seus filhos brincaram ali. Tudo deve ter piorado após a quarentena compulsória se arrastar por meses. Até a segurança do bairro pareceu diminuir. ⠀⠀⠀⠀⠀Ao olhar de longe aqueles homens, sente medo. Se arrepende de ter contrariado o médico. De não ter usado a máscara. A rua é só silêncio quando ouve a melodia repetitiva e pegajosa de um assovio. Quer dar o fora dali o quanto antes, mas nesse instante Hans consegue escapar de suas mãos e corre como o diabo. Roberto não sabe o que fazer. Se voltar sem aquele cachorro, Ana Estela é capaz de matá-lo. Fica minutos parado, sem reação. ⠀⠀⠀⠀⠀“Ei, esse cachorro é seu?”, diz um homem fantasmagórico que surge às suas costas, num átimo, com uma barba enorme e um cobertor quadriculado vermelho sobre o corpo.  ⠀⠀⠀⠀⠀Lá está Hans, ao lado daquele homem. Lambendo seus pés enegrecidos pela sujeira. Roberto sente nojo. Aquele cachorro desgraçado não pode mais voltar para casa, vai contaminar a todos, o vírus já está alojado em seu organismo, pensa. Súbito, um líquido quente e amargo lhe chega à boca.  ⠀⠀⠀⠀⠀“Porque se não for seu, vou pegar ele pra mim”, diz o homem magro que, agora agachado, abraça Hans que por sua vez lambe seu rosto e balança o rabo sem parar. ⠀⠀⠀⠀⠀Nessa hora, Roberto decide correr, mas congela e já não consegue mover os músculos do corpo. Em seguida, seu coração para num ataque fulminante e ele cai estatelado no chão. Após ver cena, o homem se aproxima, cutuca o corpo de Roberto com o pé descalço e sujo, mas ele não responde. Hans cheira o corpo até chegar à cabeça, onde um líquido esverdeado escorre da boca entreaberta de seu ex-dono. Ele rosna, o homem o acalma com um afago nas orelhas e decide sair dali o quanto antes para não ter problemas com a polícia.  ⠀⠀⠀⠀⠀Enquanto caminha lado a lado com o cão, o homem volta a assobiar baixinho a mesma melodia e, logo, outros corpos surgem mais adiante, esperando a coleta do dia seguinte.


Javier Arancibia Contreras nasceu em 1976 e foi repórter policial. Escreveu um livro-reportagem e três romances. Foi finalista dos principais prêmios literários brasileiros, como o São Paulo de Literatura e o Jabuti. Em 2012 foi escolhido pela revista literária inglesaGrantacomo um dos vinte melhores escritores brasileiros com menos de 40 anos. Publicou pela Companhia das Letras os romances Soy loco por ti, América e Crocodilo, vencedor do Prêmio APCA. fonte: Cia das Letras



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