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ENCONTRO DE DOIS MENTIROSOS

(Paulo Mendes Campos)

— Oba, como é que é, rapaz, há quanto tempo...

— Tudo azul. Você é que anda sumido.

— Dando o meu duro. E você?

— Duro, graças a Deus, eu não dou mais.

— Ficou rico?

— Talvez eu não possa dizer tanto; mas tenho ganhado meu dinheirinho... bastante dinheiro... muito dinheiro...

— Brasília?

— Brasília é mixurucagem. O que está dando dinheiro no Brasil?

— Cacau.

— Quase acertou: café no Paraná. Peguei uma boca-rica. Sempre brilhando?

— Que nada, rapaz; ando mais obscuro que boia apagada na baía.

— Modéstia sua. E as mulheres?

— Que mulher, siô!

— Pois sorte tem dado aqui o velhinho. Francamente, nem mereço tanto. Parece até mentira. Eu?! Não, isso não pode ser pra meu bico. Mas vou ver, e é. Eu nem sei o que essas garotas veem em mim. Enfim, eu é que não vou reclamar. Tou certo ou errado? (Pausa, sorriso). Saúde boa? - Quando não estou doente, passo muito bem com a minha úlcera e o meu resfriado, obrigado. E você?

— Eu?! Olhe só pra mim. Não tenho ab-so-lu-ta-men-te nada. Mas na-da mes-mo. Aliás, minto, uma coisa eu tenho: saúde demais, chega a me fazer mal. Sou um cavalo de forte. Por falar em cavalo, domingo passado dei uma no Jockey de lavar a égua; precisei de um amigo pra me ajudar a levar a gaita...

— Pois eu entrei bem e alto.

— Ora, estás a bancar o bobo. Por que não falou comigo? De uma coisa aqui, não é por me gabar, o papai entende: é dos cavalinhos. Tenho dado barbadas pra tanta gente que eu mal conheço! Se eu não tivesse vergonha, vivia só dos cavalinhos; só não viro jogador por causa dos garotos. Falar nisso, como vão os seus?

— Mais ou menos. Sempre resfriados; herdaram de mim a vocação.

— Os meus são uns touros. Papam tudo quanto é prêmio de esporte no colégio. Quer saber? Coisa boa da vida é filho.

— Também acho, mas os meus dão muito trabalho...

— Engraçado, os meus, não... Olhe: só não são os primeiros da turma porque não querem. O mais moço, então, não é por ser meu filho, mas nunca vi ninguém tão inteligente. É um monstrinho o guri! Os seus são estudiosos?

— Que nada! Todos eles, uns vagabundos de meia-tigela.

— Isso é bom sinal. São vivos, não são?

— Sei lá... Tem um que eu acho que nem é muito certo da bola...

— Esse negócio de filho é sorte. Aliás, quer saber de outra? Neste mundo tudo é sorte. Veja só o meu caso: eu, que sempre fui um boêmio, um boa-vida, não fui me casar com uma criatura fabulosa? Bonita (bonita, não é por ser minha mulher, é apelido), simpática, compreensiva, um anjo. E, além do mais, me adorando. Se eu chegar em casa agora e disser pra ela sem nenhuma explicação: “Minha filha, vamos viver na Favela do Esqueleto” — ela vai arrumar a trouxa sem pestanejar. E, por cima de tudo, rica. Você sabe que meu sogro deixou dinheiro que foi preciso carregar de caminhão. Sabia disso, não sabia?...

— Claro, claro.

— Pois é, que é isso? Sorte, pura sorte. Mas sua mulher também é uma santa.

— Não é má pessoa, mas eu não aguento mais minha mulher. Tou cheio. Melhor até mudar de conversa. (Pausa.) Que acha das eleições?

— Você não ignora que eu nunca me meti no diretamente em política. Pra mim, tanto faz como tanto fez... Olhe, eu me dou com o Lott... O Jânio é meu amigo... O Ademar, este é do peito... Aqui no Distrito (isto é, no Estado da Guanabara) a turma é toda minha. Taí, eleição é bicho que não me mete medo. Nem vou votar. E você, está com quem?

— Também não vou votar.

— Você é como eu.

— Não, é que perdi meu título de eleitor. Vou pegar dessa vez é multa.

— Pega coisa nenhuma. Se der galho, fale comigo, mas fale antes de dezembro, pois no dia 1º embarco pra Europa, e o Brasil não vai me ver antes de uns seis meses; já estou até de passagem comprada.

— Sozinho ou com a patroa?

— Já viste alguém levar sanduíche a banquete? Sozinho, velho. Você conhece a Europa?

— Só conheço Petrópolis, e mal. (Pausa.) Tá quente hoje, hem?

— Você acha? Não estou sentindo.

— Estou morrendo de calor. Vamos tomar um uisquinho num bar refrigerado.

— Grande ideia... mas espere aí... Puxa! Minha mulher hoje passou forte pela minha carteira.

— Deixe isso pra lá... Vamos ao uísque.

— Mas na próxima vez eu faço questão.

CAMPOS, Paulo Mendes. Primeiras leituras. São Paulo: ed. Schwarz, 2012. Coleção Boa Companhia,


Paulo Mendes Campos nasceu em Belo Horizonte em 28 de fevereiro de 1922. Com mais sete irmãos, herdou da mãe o gosto pela leitura e sem concluir nenhum curso superior, em 1940 pública seu primeiro texto no jornal Folha de Minas. Depois disso trabalhou em muitos jornais e revistas, já no Rio de Janeiro, pra onde foi em 1945. Publicou seu primeiro livro “A palavra escrita”, em 1951, ano que casou-se. Faleceu no Rio Janeiro em 01 de julho de 1991 e deixou um grande legado como escritor, poeta, tradutor e jornalista.

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