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52: O Peso e o Fio


Domingo, 4 de janeiro de 2026.


O primeiro domingo do ano chega quase no fim, e eu aqui, cumprindo o pacto. Cinquenta e duas pela frente. O ano começou pesando: na quinta, dia 1, uma advertência no trabalho por um erro que não foi meu. O gosto é de injustiça ácida.


Mas na sexta, dia 2, um alívio: a ideia de São Tomé das Letras com ela. A pessoa que, em poucos dias, virou uma luz nova no horizonte. E o plano ganhou uma data: setembro. Setembro é longe. É um sonho com prazo de validade extenso, que tira a urgência e coloca um conforto. Podemos planejar sem desespero.


O desespero, na verdade, era outro. A dispensa vazia, o retroativo atrasado, o salário só no dia 7. O empréstimo foi para segurar as pontas: leite, café, pão. Para chegar vivo até o pagamento e, quem sabe, até setembro. É uma ironia tranquila: pensar numa viagem para as montanhas enquanto se segura as pontas do mês.


Entre um cálculo e outro, mergulhei. Cinco filmes em quatro dias. Um ritmo de fuga concentrada. O que ficou foi Medusa. Aquela fúria contida falou com a advertência que eu também contive. O cinema é o espelho mais seguro.


E enquanto seguro agulhas e estudo anatomia para mudar os corpos dos outros (sou bodypiercer, é isso que faço), planejo meus próprios cursos. Minha transformação é por dentro e através do conhecimento; a dos outros, pelas minhas mãos. É um contraponto interessante.


O ápice da semana foi mundano. Meu amigo de infância veio, bebeu vinho demais e vomitou no banheiro. Não estava doente, estava bêbado. A cena perde o drama romântico e ganha a realidade comum: a amizade que limpa a bagunça alheia sem fazer um caso de saúde pública. Depois, ele foi para casa. Ficou só o cheiro de desinfetante e a sensação de que, às vezes, cuidar do outro é um ato simples, quase mecânico.


E o mundo? Os Estados Unidos sequestraram o presidente da Venezuela. Li entre o preço do pão e o horário de um curso online. Soou distante. A vida pequena e concreta — a injustiça no trabalho, a paixão que nasce, o amigo bêbado, a conta do mercado — tem um volume tão alto que abafa até um sequestro presidencial.


Assim se encerra a semana 1. Começou com uma punição e terminou com um banheiro limpo. No meio, nasceu um plano para setembro e uma dívida para fevereiro. Cinquenta e duas crônicas pela frente. Se todas forem assim, intensas e comuns, ao chegar na crônica número 1, talvez eu entenda melhor o fio que une o peso e a luz.


Até o próximo domingo.

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