Kafkaniando


Ela demorou pra acordar aquele dia. Não sentia-se bem. Estava com a cabeça pesada e o corpo mole. Seus braços, pescoço, pernas, não correspondiam aos seus estímulos cerebrais. Olhou para baixo, por um minuto pensou que o que estava acontecendo com ela era o mesmo que aconteceu com seu affair literário, Gregor Samsa. Se imaginou uma grande e gorda barata cascuda, virada sobre uma cama, de barriga para cima.

Mas não, seu corpo estava ali, como sempre, pernas e barriga flácidas, seios grandes e caídos… precisava começar a fazer academia urgentemente. Mas não agora. No momento, pensar em se mexer da cama já lhe dava engulhos e vontade de vomitar.

Resolveu fechar os olhos novamente e começou a imaginar como uma barata se movimentaria entre os aparelhos de uma academia de ginástica. Como seria fazer abdominal, esteira ou quem sabe um leg press com suas patinhas curtas e ágeis. Sorriu. Mas até pra sorrir não tinha ânimo. Continuou imaginando suas amigas fúteis, falando sobre maquiagem, moda, compras, balada do momento, boys, enquanto se exercitavam comparando quem empinava mais o bumbum no espelho pra ver qual era o mais duro e desejável, fazendo exercícios ao lado de uma grande e gorda barata, no caso, ela. Agora sorriu um pouco mais alto, um pouco mais, mas a preguiça também aumentou. Aumentou o enjoo. Já estava cansada das aparências e do esforço que fazia todos os dias pra mante-las. Talvez fosse esse o problema e se fosse uma barata tudo seria mais fácil. Nada de academia, nada de redes sociais, nada de filtros, harmonizações faciais, barriga negativa, opinião sobre tudo e todos, sorrisos falsos, ”gratiluz” e positividade tóxica. Como barata, a única coisa tóxica que poderia lhe fazer mal era algum tipo de inseticida e mesmo assim teria que ser potente, pois como se sabe, as baratas são resistentes e rápidas. E ela também era. Apesar do cansaço que sentia, sentia-se forte, literalmente cascuda.

Decidiu então não se levantar, não enfrentar a realidade, o mundo das aparências, dos flashs, das selfies, não naquele dia, talvez amanhã. Precisava se preservar, se cuidar, se fortalecer. Virou para o lado, pegou seu livro preferido na cabeceira da cama, abraçou o já amarelado e gasto objeto e sonhou, sonhou com uma poderosa e necessária metamorfose.



Este texto é de responsabilidade do autor/da autora.

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